Penso não haver dúvidas de que de que incertezas, expectativas, temores e prazeres que servem de pano de fundo no início dos relacionamentos tendem a sobreviver ao tempo, em especial quando o investimento é bem sucedido. É claro que, nestes casos, dificilmente os envolvidos entendem da mesma forma o que se pode chamar de sucesso. Afinal, continuar juntos é já indício de que alguma coisa existe em comum. No início dos relacionamentos com certa facilidade se obtém do outro exatamente aquilo que o outro também está disposto a oferecer. Por tal motivo os príncipes e princesas são rapidamente identificados e cada vez mais se deseja garantir a continuidade da doce sensação de estar vivendo num paraíso terrestre.
Lembro-me de alguém que me disse uma vez que conquistar é fácil, o difícil é manter a conquista. Por mais que a aura de otimismo possa fazer parte dos corações apaixonados tal pensamento não é de todo injustificado. No intuito de garantir a presença daquele ou daquela considerada “cara metade” inicia-se um processo de cerceamento da liberdade, espontaneidade, sociabilidade que tanto contribuíram para o momento da descoberta. De alguma forma cada um esforça-se em fazer com que o outro pense, goste e haja como ele desconsiderando ou punindo todo um modo de ser, que se constitui na verdadeira riqueza a ser compartilhada no relacionamento.
Quando se diz que depois de algum tempo os príncipes e princesas começam a dar lugar a sapos e sapas, deve-se perguntar até que ponto você está transformando o outro (que se apresentou de forma livre, espontânea, dedicando a você o melhor que poderia lhe oferecer) em “escravo do seu amor”. De fato, ao serem criadas regras que o outro deve cumprir como condição para estar juntos, de alguma forma repete-se um comportamento até certo ponto aceitável na relação pais e filhos mas não na relação afetiva. É factível que os pais concentrem grande parte de suas energias na transformação de seus filhos em uma espécie de cópias daquilo que eles são, sobrando pouco tempo à relação de amor e amizade de que tanto os filhos necessitam. Por melhores que sejam suas intenções, quanto mais regras são impostas, mais os filhos buscam contorna-las. Esta é uma tendência também observada nas relações afetivas restritivas.
No relacionamento, os sonhos se transformam sim em pesadelos e somos nós os responsáveis por este sortilégio. Contudo, abaixo o desespero! Embora não seja possível garantir, pelo menos pode-se apostar na máxima de que ao se respeitar o modo de ser do outro, aumenta-se a probabilidade de que o relacionamento dê certo. Para que as chances disto ocorrer sejam aumentadas, uma regra essencial, e porque não dizer “lei fundamental do relacionamento” deve ser cumprida: da mesma forma que respeita e valoriza o modo de ser do outro, o outro também deve respeitar e valorizar o teu modo de ser. O não cumprimento desta “lei” contribui para o iminente fim do relacionamento, ou pelo menos dos sentimentos de felicidade de um dos parceiros. Não restam dúvidas de que em todos os relacionamento existem renúncias. Porém nenhuma renúncia deve implicar na perda da alegria e da liberdade de viver e de ser o que se é. Portanto, para aumentar as possibilidades de sobrevivência de sua relação ame e seja amado com liberdade.
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